A ideia de Encruzilhadas do Caos bateu pra lá e pra cá na minha cabeça durante anos. Foi lá por 2014 que vislumbrei a fagulha da história pela primeira vez: misturar heavy metal com algum elemento fantástico numa aventura urbana de correria frenética. A premissa é simples de contar: uns jovens saem pra colar cartazes de show de heavy metal, encontram uma oferenda de macumba no caminho, mexem onde não deviam, comem o franguinho, bebem a cachaça, e dali pra frente é só coisa absurda acontecendo. Esse é o esqueleto do filme. Mas pra explicar de onde ele veio de verdade, tenho que contar um pouco da minha própria história com a música, com os jogos de RPG e com essas ruas da Grande Vitória, porque o filme é feito quase inteiro de coisas que eu vivi de verdade.
Sou headbanger, mas antes de ser headbanger eu já era jogador de RPG, desde criança. Ah, headbanger é o termo mais adequado para se referir a pessoas que curtem a música heavy metal em geral. Cresci num condomínio popular estilo COHAB, em Valparaíso na Serra, prédios de poucos andares, cheio de gente, e com uns 7 ou 8 anos meu amigo Rodolfo (até hoje amigo, a gente ainda se encontra pra beber cerveja de vez em quando) me apresentou o Dragon Quest, aquele jogo de tabuleiro que é praticamente uma introdução ao universo do RPG de mesa.
Em uns seis meses o tabuleiro já não dava conta da nossa imaginação, aquelas ilustrações incríveis não bastavam mais, e a gente foi migrando pra D&D e depois pra sistemas mais complexos, incluindo todo o universo de horror do World of Darkness: Vampiro, Lobisomem, e sistemas mais complexos e realistas como Gurps. Jogava isso quase todo dia no ensino médio. Férias escolares era sinônimo de RPG o dia inteiro.
E tem um detalhe que só faz sentido agora, olhando pra trás: a gente jogava Vampiro sempre à noite, e transitava pelas ruas da Serra de madrugada, porque nossas famílias já não aguentavam mais o barulho da empolgação e dos risos estridentes, comuns em nossas campanhas, e a gente não tinha lugar adequado pra jogar. Porque será, né? Logo, esse hábito de andar pela cidade de madrugada, e todo esse submundo urbano noturno que sempre me fascinou, vem de muito antes do filme. Acho que o RPG na juventude ajudou a nascer na gente aquele espírito aventureiro e sem noção, da imaginação pra vida real.
Já éramos os mestres da "pilha-errada". Ali surgiam os "Kobolds", nosso infame grupo de RPG. Adolescentes vestidos de preto que perambulavam pelas ruas noturnas da Serra com pastinhas de RPG debaixo do braço. As pessoas achavam aquilo esquisitíssimo. Mas na Cartilha de Sobrevivência Kobold, explicar o que era RPG para um adulto leigo era item básico, a gente já tinha o discurso pronto: "O Role-Playing Game foi inventado nos Estados Unidos na década de 70 por… blá, blá, blá… estimula a imaginação e o aprendizado… blá, blá, blá…", que fazia os adultos se sentirem tolos ignorantes sem cultura. Sempre funcionava. Hoje essa figura do adolescente rpgista que vaga pela noite é quase extinta.
Do RPG pro heavy metal foi um passo curtinho, é o mesmo universo, a mesma estética sombria e fantástica. Comecei ouvindo Beatles em casa, minha irmã era beatlemaníaca (era?), subi pro trio Black Sabbath/Led Zeppelin/Deep Purple, depois Iron Maiden, e no meio da adolescência já estava nas vertentes mais extremas: thrash metal, death metal, black metal. Aos 14 anos montei minha primeira banda com amigos do bairro, o Moonrise Orphan, que até tem uma demo e que pode ser ouvida aqui. Depois vieram outras, entre elas a Wolfshade, que existe até hoje.
Naquela época a gente saía pra colar cartaz de show pelas madrugadas da Serra e de Vitória, porque internet ainda era embrionária e rede social não existia de verdade, cartaz colado na rua era a forma real de fazer um show ser visto, de fazer alguém saber que aquilo ia acontecer e estava ali, acontecendo de verdade. Era, acima de tudo, uma tradição.
Foi numa dessas noites, em 2006, que nasceu de fato a semente de todo projeto "Encruzilhadas do Caos". Naquela época eu tinha, além da banda, uma pequena produtora underground com meu parça Léo Hackin (Evictus), chamada Obscure Sounds, e produzimos alguns eventos com bandas locais e de outros estados por um tempo. E naquela época, via contatos de MSN, caiu no nosso colo a oportunidade de trazer pela primeira e única vez uma banda de black metal de Brasília, com letras em português, com temática de civilizações pré-colombianas, maias, incas, coisa que eu achava muito legal e acho até hoje: para os(as) curiosos(as), a banda se chama Miasthenia.
E percebo agora que o cast de bandas para esse evento foi sensacional: além de Wolfshade, Evictus e Miasthenia, o evento contou com irmãos da Catacumba e Delicta Carnis, além de As Dramatic Homage e Terrorstorm, ambas do RJ.
Faltavam apenas duas semanas para a realização do evento e precisávamos urgentemente espalhar cartazes pela cidade, só que o Espírito Santo vivia um momento tenso de verdade naquele período: encarcerados dos presídios daqui tinham se rebelado e ordenado múltiplos ataques aos ônibus da linha metropolitana da Grande Vitória, mais de quinze incendiados, e pela primeira vez na história a Guarda Nacional foi acionada para auxiliar na segurança pública da Grande Vitória.
Era caminhão do exército pra lá e pra cá. As ruas desertas e aquele silêncio imperial que abarcava a noite. Ninguém queria sair de casa pra colar cartaz nesse cenário, e é compreensível, ninguém queria dar bobeira na rua. Quer dizer, ninguém mais ou menos, né. Sempre tinha uns doentes.
Fui na padaria comprar polvilho pra fazer o grude, a cola caseira de cartaz, que nessa época era feita de forma tosca e artesanal com produtos comuns, e na volta encontrei Eurico, um colega de bairro:
— Colé, Preto! Tá indo aonde com esse trigo? — Fala, gordão! Não é trigo não. É polvilho para fazer grude pra colar cartaz. — E quando é que você vai sair pra colar? — Hoje… daqui a pouco, na verdade… — E quem vai com você? — Ninguém! Todo mundo frangou por causa de uns foguinho em ônibus, acredita? — E tá me dizendo que vai sozinho? — Po, cara, menos de duas semanas pro evento, e não tem nenhum cartaz na rua. Posso tomar prejuízo dessa vez não… Fazer o que né… — Tá maluco! Você não vai sozinho não. Vou lá em casa tomar um banho e trocar de roupa. A gente se encontra aqui…
E foi ali, em frente à padaria, que Eurico deixou de ser meu colega e virou meu amigo pelo resto da vida.
Nos encontramos no horário combinado. As ferramentas de trabalho eram de uma tosquice imensa: 2 garrafas pet de dois litros com grude de polvilho azedo que tinha um cheiro horrível de chulé com vômito, 2 pincéis de pintar parede, desses de material de construção, e uma centena de cartazes A3 em couchê brilhante (sério, a gente se orgulhava muito disso) estampados com logotipos que só os iniciados no metal underground conseguiam decifrar, tudo alocado numa mochila velha e surrada.
O itinerário era: Terminal de Laranjeiras > Terminal de Carapina > Passarela da UFES > Rua da Lama > Reta da Penha > Av. Vitória > Centro. Então a gente já foi andando pro Terminal de Laranjeiras, que há 20 anos era a mesma coisa de hoje, impressionante, acho que os Terminais do sistema Transcol na Grande Vitória estão numa cápsula do tempo, lá o tempo não transcorre da mesma forma, dá até um filme, vou pensar num roteiro em breve.
E lá estávamos, o terminal vazio, poucos ônibus a circular. Já metemos uma dúzia de cartazes na entrada do terminal, formando um belo paredão. E fizemos o mesmo em Carapina, partindo então para Vitória. Saltamos diante da antiga passarela da UFES, que hoje nem existe mais. Eu espalhava o grude na parede, Eurico posicionava o cartaz e eu lambrecava tudo com aquele grude nojento.
Naquela noite vimos de tudo: brigas de rua, uma briga envolvendo uma travesti apanhando, viatura passando, sirene, aquele pedaço cru de submundo urbano que só quem sai de madrugada mesmo conhece. Sobrevivemos por muita sorte, no fim das contas. Esse amigo virou amizade pra vida toda, e aquela noite inteira, com todo o absurdo que ela carregou, virou o motor real do roteiro. Tudo que aqueles meninos fazem no filme, colar cartaz, se meter onde não deviam, sobreviver ao caos da noite, eu fiz quando era jovem.
Encruzilhadas também quis carregar uma questão que já vinha nos meus trabalhos anteriores: os personagens tinham que ser negros e pardos, e eu queria trazer mitologia e sobrenatural de um jeito respeitoso, não caricato. Meu amigo Rodrigo Aragão foi quem me incentivou a trazer os orixás pro filme, mesmo eu não pertencendo a nenhuma religião de matriz africana, nem a nenhuma religião, na verdade. Fui atrás de verdade: li sobre a mitologia iorubá, frequentei um terreiro pra entender aquilo de perto, não de fora. Não queria representar nada de forma pejorativa, queria tratar aquele universo com o respeito que ele merece, um universo mágico e riquíssimo, misturado com a forma como a cultura popular brasileira enxerga (e teme, muitas vezes sem saber direito o que é) a macumba, aquele "vai lá e come o ebó" que é tão temido quanto desconhecido por quem nunca chegou perto de verdade.
Quando surgiu a chance de fazer esse curta, eu já tinha o roteiro do longa em desenvolvimento avançado, terceiro ou quarto tratamento, trabalhado dentro de um núcleo criativo lá na Finórdia. Então usei o curta como teste real de desenho de produção pro longa: se aquilo funcionasse em vinte minutos, com aquela estrutura de equipe e aquele orçamento, dava pra escalar pro filme inteiro depois. O longa foi gravado um ano e meio, dois anos depois, olha que doideira, e hoje já está filmado, em pós-produção, com previsão de lançamento em 2026.
O maior desafio do curta foi elenco. Espírito Santo tem um mercado de atores pequeno pro tamanho que é, quatro milhões de habitantes contra os quase cinquenta milhões de São Paulo, vinte e um milhões de Minas, dezoito milhões do Rio, então achar o perfil certo de atores negros e pardos, jovens, pra esse tipo de papel não é simples por aqui. Mas eu tenho o hábito de reparar em talento nas pessoas ao redor, mesmo fora do circuito de atores profissionais.
O Ozinho é tatuador, cantor, múltiplo artista, eu já tinha filmado ele antes numa guerrilha de videoclipe que fiz em Vale Encantado, na Terra Vermelha, região de Vila Velha, um daqueles projetos de arte pela arte que eu gosto de fazer uma vez por ano. Editando aquele material percebi que ele tinha um jeito de olhar pra câmera, uma presença que não é de quem foi treinado pra isso, é de quem simplesmente tem.
O Marcel eu conheci de outro jeito: ele é artista de rua e poeta, e eu o conheci através de um podcast/webserie sobre literatura capixaba que eu produzia, o Palavra Negra, onde ele foi apresentar a própria poesia. Editando aquele episódio, reparei que ele tinha uma presença de câmera parecida com a de um jogador de futebol, tipo um Ronaldinho Gaúcho, um carisma natural.
Os dois entraram pro filme, duas semanas de preparação de elenco com meu amigo Edison Ferreira, cineasta talentoso e atencioso, e o resultado é um filme bem-acabado justamente por causa desse cuidado técnico por trás das câmeras, mesmo lidando com atores que vieram de fora do circuito tradicional.
Gravamos vinte minutos de ficção em cinco dias, todos noturnos, um desafio que a equipe cumpriu com maestria, gente se dedicando pra caramba, e que serviu de treino direto pro que viria depois no longa, inclusive na experiência dura de trabalhar de noite de forma intensa. Toda camisa de banda que aparece no filme é de banda real do underground capixaba e nacional, fiz questão disso, são manifestações reais da cena de música daqui.
E a música do encerramento é da Luxúria de Lilith, uma banda real, cantando em português, decisão proposital, porque ainda existe um preconceito bobo e antigo dentro do próprio meio do metal de que cantar em português "soa mal", que é "brega". É um absurdo que a gente só enxerga como absurdo depois de uma certa idade e maturidade. Não soa mal. Fica perfeito, e eu não consigo mais imaginar aquela cena com a música em outro idioma.
Tem uma última coisa que preciso contar com mais cuidado, porque ela pesa diferente de tudo o resto. O instrumento usado na cena final é uma guitarra do meu amigo Bruno. Foi ele quem me ensinou a tocar guitarra na adolescência, dividimos banda juntos lá no começo, a mesma época da Moonrise Orphan. Bruno depois formou a Catacumba, ao lado do baterista Vaguinho. Em 2021, Bruno tirou a própria vida, se jogando do quinto andar de um prédio. Foi um baque enorme pra todos que o conheciam. Ele era um compositor de talento imenso, e a notícia nos marcou de um jeito que ainda carrego. Depois que ele partiu, passei a ocupar o lugar dele na guitarra da Catacumba, tentando honrar da melhor forma possível o legado musical que ele deixou, tocando ao lado de amigos que já são de mais de três décadas de estrada. Colocar aquela guitarra específica, a dele, na cena final do filme, empunhada pra fazer a música tocar, foi minha forma de trazer um pouco do Bruno comigo pra dentro dessa história. Não é um detalhe de produção qualquer. É uma homenagem.
Encruzilhadas do Caos é, no fundo, o encontro de tudo que sempre me formou: as noites de RPG e o hábito de andar pela cidade de madrugada, o heavy metal como escola de fazer as coisas com as próprias mãos, e o cinema, feito do jeito que sempre fiz, com os amigos que sobraram de trinta anos de estrada, alguns ainda aqui, um deles só em espírito, mas presente na tela mesmo assim.
