Cartaz de Jeitinho Brasileiro
Artigo · 2010

O Início de Tudo: Por Que o Seu Primeiro Curta Não Precisa Ser Perfeito (Mas Precisa Acontecer)

Jeitinho Brasileiro (2010)

Por Alex Buck

Meu primeiro curta metragem se chama "Jeitinho Brasileiro", de 2010, feito em pleno contexto universitário, lá pelo quinto ou sexto período do curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda da Faesa em Vitória, que na época era lá em São Pedro o que me fazia gastar quatro horas diárias da vida em busão. Mas tinha um dos por do Sol mais lindos que eu já vi na vida. Era o melhor curso de Publicidade e Propaganda do Espírito Santo na época. Fui parar lá por conta do ProUni. Estudei muito e fui muito bem na prova do Enem, o que me garantiu uma vaga para essa bolsa, uma das mais concorridas na época. Pra mim era muito importante eu estar ali. E aproveitava ao máximo todas as oportunidades de ter contato com equipamentos e toda aquela estrutura. Foi meu primeiro curta. E se tem uma coisa que eu quero deixar clara antes de qualquer análise técnica pretensiosa, é essa: eu não sabia nada. Não sabia como se pratica isso de fazer filme, na prática. A perna tremia. A insegurança de todo mundo que nunca fez é a mesma, sempre foi: por onde eu começo? Mas ao olhar pra trás percebo que o caminho não foi tão simples e linear. Na verdade, pra chegar nesse resultado final foi uma batalha de perseverança por caminhos tortuosos. A primeira tentativa de produzir "Jeitinho Brasileiro" foi numa gravação em estúdio lá nos estúdios da Faesa em São Pedro, com fundo preto e apenas um ator com a corda no pescoço. Gravamos com uma filmadora da faculdade, uma câmera robusta de fita mini dv e sensor de 3CCD's, que eu nem sabia o que significava, mas achava o máximo na época. As imagens ficaram tão constrangedoras que eu abandonei o projeto por um tempo. Que um dia o Caio, que até então era o ator que tinha atuado como enforcado, e aluno de Rádio e TV, me propôs de regravarmos aquilo, mas daquela vez num cenário real, no quintal da casa dele, um casarão irado no coração do Centro de Vitória, e que naquela época do ano tinha um pé de carambola recheado. Nada mais brasileiro. Dessa vez ele, o Caio Perim, assumiria o papel de diretor de fotografia e câmera, algo no qual estava empolgado pra ser e finalmente estrear sua nova aquisição, uma câmera Canon 7D. Mal sabia eu que ali se iniciava uma revolução na produção audiovisual mundial. As câmeras DSLRs chegaram!

A resposta que eu dei na época foi ler a tese de doutorado da Lívia Barbosa, socióloga referência em estudos brasileiros, sobre o conceito de jeitinho brasileiro. Peguei um tema acadêmico e decidi transformar em curta, o que já mostra que eu tinha vindo direto da publicidade e ainda carregava todo o vocabulário de lá comigo. Uma das coisas que eu explorei bastante foi ancoragem: você mostra uma imagem e diz uma coisa com as palavras, e é essa fricção que cria sentido. Mostro um charuto, falo charuto, é uma coisa. Mostro o mesmo charuto, falo doença, é outra completamente diferente. No filme, isso vira literal: a narração afirma que há mijo a escorrer pelas pernas enquanto a imagem revela sangue. Muda tudo.

O curta inteiro foi escrito pra chegar a duas viradas. A primeira é de linguagem: um texto só, lido por vários amigos meus, não atores, cortado no meio da frase entre uma voz e outra, criando essa pluralidade de vozes que fala sobre o povo brasileiro sem parecer discurso de sociólogo. Todo aquele silêncio entre as pausas era proposital, guardado pra um efeito só, o momento em que a música da Escola de Samba da Piedade entra e a cena vira uma espécie de dança macabra, o personagem se enforcando na ponta dos dedos, sambando no próprio sangue. A segunda virada é a que eu mais gosto: quebra a quarta parede, a câmera se assume câmera, o ator sai do personagem, e entra o diretor (eu) tentando acalmar meu amigo Gabriel, que fez a cena do enforcamento de verdade, com a corda de verdade, puto de verdade depois de vinte minutos na ponta dos dedos. Foi um take só. Ficou tão bom que eu não quis arriscar repetir. O recado do filme, no fim, é que ninguém está isento do jeitinho brasileiro, nem o cara que dirige o filme sobre jeitinho brasileiro. Inclusive ele.

Nada daquilo foi feito com ator profissional, orçamento, ou qualquer certeza de que ia dar certo. Era eu e meus amigos de faculdade, alguns da minha turma, outros de outros cursos de Comunicação, aprendendo a fazer instrumento na marra, testando técnica que só existia em teoria até aquele momento. E é justamente por isso que hoje, mais de 15 anos depois, ainda considero esse meu primeiro curta um dos trabalhos de que mais me orgulho. Não porque seja perfeito, ele tem toda a marca de quem tava aprendendo enquanto fazia, mas porque foi o primeiro passo de verdade, o que deu origem a tudo que veio depois. Levou terceiro lugar no Festival Universitário da Federal do Mato Grosso, rodou vários estados do Brasil, e no ano seguinte o curta que eu fiz depois dele, "Eu, Zumbi!", levou o primeiro lugar no mesmo festival. Do terceiro pro primeiro em um ano é a prova mais concreta que eu tenho de que aprender fazendo funciona.

Se você está no começo agora, tentando decidir se vale a pena filmar aquela ideia torta com os recursos que você tem, a única coisa que eu aprendi de verdade com "Jeitinho Brasileiro" é essa: monte um coletivo. Não espera ter equipamento bom, ator profissional ou orçamento decente. Junte as pessoas que estão do seu lado agora, seus colegas de curso, seus amigos que também querem aprender, e pratique as ideias de todo mundo, não só as suas. É segurando a câmera pro filme do seu amigo que você aprende a técnica que vai usar no seu. Ninguém nasce sabendo, e o primeiro curta de qualquer um vai ter perna tremendo igual a minha teve. A diferença entre quem segue fazendo filme depois disso e quem para por aí não é talento, é ter feito o primeiro, com medo e tudo, e aprendido a base ali, na marra, com quem estava do seu lado.

Assista ao curta