Cartaz de HIC (2017)
Artigo · 2017

Câmera no Capacete e Engenharia Caseira: Os Truques de Baixo Custo por Trás do Premiado "HIC"

Por Alex Buck

"HIC" foi meu primeiro curta com financiamento de verdade, o que já é uma história em si: ganhei o edital da Secretaria do Audiovisual em 2014, levei até 2016 pra finalizar e só lancei em 2017. Três anos entre o dinheiro cair e o filme sair, que é basicamente o ritmo padrão de qualquer produção cultural dependente de edital público neste país.

A ideia central é um maratonista africano que vence uma corrida internacional aqui em Vitória e, no auge da vitória, desaparece. Começa a se teletransportar, só dentro do perímetro da cidade, e ninguém consegue explicar o fenômeno. É ficção científica barata usada como alegoria de uma coisa bem mais concreta: a invisibilidade e o apagamento de corpos negros, tratados aqui de um jeito que eu nunca tinha encarado tão de frente antes. Foi meu primeiro filme com um engajamento real sobre a questão da negritude, e isso não foi acidente. Veio direto de uma virada que aconteceu logo depois do "Repolho", quando fui convidado a participar do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Aquilo mudou minha cabeça de um jeito que só apareceu de verdade nesse filme seguinte.

Tecnicamente, quis romper com uma convenção clássica do cinema de ficção: o plano e contraplano no diálogo. Em "HIC", quando existe diálogo, ele vem quase todo em primeira pessoa, através de uma câmera que construímos presa a um capacete, pra dar visão subjetiva de verdade.

Bastidor de HIC · ator com câmera presa ao capacete
Bastidor: o capacete-câmera em ação nas ruas de Vitória.

Construímos também uma plataforma giratória, feita com ajuda de um serralheiro, pra girar a câmera em volta do personagem para o momento clímax do filme.

Bastidor de HIC · equipe em volta da mesa giratória à noite
Bastidor: equipe operando a plataforma giratória à noite no Centro.

A ideia surgiu de um problema prático: eu precisava que o personagem explodisse de raiva num momento específico do roteiro, diante de tantas barbaridades, e queria uma solução de baixíssimo custo que ainda tivesse uma estética forte. Virou uma das sequências de que mais me orgulho no filme inteiro, e o equipamento que a gente montou ali eu segui usando depois, em videoclipe, em publicidade. Ficou um legado que sobreviveu ao próprio filme.

Foi também meu primeiro trabalho com storyboard de verdade, feito com ajuda de um ilustrador profissional, o Tarcísio Bahia, o que mudou completamente meu processo: a gente já sabia exatamente o que precisava fazer antes de chegar no set, então perdia muito menos tempo. E a cidade, de novo, vira personagem: rodamos a Ilha de Vitória inteira, em lugares que já são quase cartão-postal, porque é o lugar onde a gente vive e experimenta a própria existência, então fazia sentido que ele também carregasse peso dramático.

Uma curiosidade que só esse tipo de arte pode reservar. Enquanto o curta estava na pós, o que demorou alguns meses dada a quantidade e a complexidade de alguns efeitos especiais, eu fui fazer fotos e vídeos de uma performance feminista com a Roberta Portela e a Lilian Casotti, minhas amigas do teatro, chamada Poéticas do Corpo: Bonecas de Louça. A performance consistia nas meninas vestidas como bonecas de porcelana em praça pública: elas iam se despindo do figurino e, ao final, na pele nua, apareciam vários recortes de reportagens sobre violência contra a mulher, o que gerava um impacto insano em quem passava na rua.

Fizemos várias cidades e cada uma reagia de um jeito diferente, até chegar a última, Domingos Martins, nas montanhas capixabas. A performance terminou, e aquela tinha sido a cidade mais estranha até então, como se houvesse um véu sobre o tema, o que fazia as mulheres abaixarem o olhar, uma coisa bem opressiva e velada no ar. Terminamos com aquele peso estranho.

Fomos para a rua do lazer da cidade comemorar, beber uns chopes. As meninas e a produção foram na frente, eu fiquei terminando de guardar os equipamentos e parti depois. Todos ali na frente da cervejaria comemorando com suas tulipas de vidro. Entro e peço um chope para a moça que estava atendendo. Ela, sem pestanejar, pega um copo descartável e me serve.

Quando me aproximo do grupo, percebo imediatamente: eu era o único com um copo de plástico. Exatamente como numa das cenas do "HIC". Começo a rir involuntariamente, a Roberta me pergunta o que foi e eu explico. Ela se revolta na hora e vai até a atendente reclamar, perguntar por que eu era o único com copo descartável. Nem preciso dizer que eu era o único negro, né?

Me recordo do meu amigo André Rios, que estava na produção da performance, se virar e me perguntar: "Você não vai fazer nada?". Ao que eu respondi: "Eu já fiz. Fiz um filme que vai falar por mim e deixar esse povo todo com um nó na garganta de vergonha." E fiz mesmo. Às vezes a melhor resposta vem na forma de arte.

"HIC" ganhou o grande prêmio de curta-metragem experimental latino-americano no Festival Torre de Babel, em Cusco, no Peru, e circulou por festivais na América Latina, Europa e Ásia. Foi um processo longo, do primeiro rascunho da ideia até a tela, mas é um dos filmes que mais me deu confiança pra tratar de um tema urgente sem soar didático, escondendo o recado dentro de uma ideia absurda o suficiente pra ninguém desviar o olhar antes da hora.

Assista ao curta